Portuguesa Brasilis

Durante meus estudos para os trabalhos da universidade, deparei-me com a metodologia linguística de estudar a língua em seus aspectos históricos e fazendo comparações com outras línguas. Basicamente, dentro desta teoria, as línguas têm relações de mãe, filhas e irmãs, sendo assim, me deixei levar pela criatividade e escrevi esta pequena história para retratar essa grande família linguística. 


PORTUGUESA BRASILIS 

A família de vocês também é grande? Porque a minha é, e pra dedéu... Tão grande que não conseguimos ficar numa mesa nos almoços de domingo, ainda tenho primos que não faço ideia de quem sejam e outros que nem sei se existem.

Sou uma das mais novas, digo isso porque alguns de nós não temos registros de quando começamos a aparecer na boca do povo e também porque sou gêmea de outras oito. Latim, nossa mãe, usou um segundo nome para saber quem é quem. Sabemos que a mais velha de nós é a Portuguesa Portuga, que nos ensinou a falar igualzinho a ela (embora não tenha dado muito certo), depois dela, é uma bagunça que só... Tem eu, Portuguesa Brasilis; a Portuguesa Guiné, Portuguesa Macau, Portuguesa Angola e assim vai até completar uns nove dedos das mãos.

Mamãe diz que devaneio muito e não crio meus objetivos pra começar a falar e falar até o infinito, isso se chama ser Prolixa, ela que inventou essa palavra, acho muito bonita. Nós todos gostamos de inventar palavras, embora eu seja mais adepta a buscar por “contribuições”, por exemplo... Certa vez, há muito tempo atrás, conheci uma Língua muito bonita, ela tinha o corpo forte, uma pele reluzente e de fala pesada, chamava-se Africana, que também tinha muitas irmãs, mas ninguém se prende a isso, todo mundo acha que é a mesma coisa. Africana me trouxe um caderninho com páginas e páginas de palavras que reuniu. Eu adorei e mesmo sendo uma época muito difícil, as palavras se soltaram e o povo logo começou a falar: “Sou o caçula da família”, “Moleque travesso”, “Aquela menina tem samba no pé”. Viu só? Posso não ser tão criativa quanto à mamãe, mas sou ótima com relações internacionais. Antes mesmo disso, quando vim para o Brasil, numa época que eu ainda era um “pequeno papagaio” de Portuguesa Portugal, encontrei-me com a Tupi-Guarani, cheia de penas, pinturas pelo corpo e muito amorosa. Outro período complicado, mas com uma ótima contribuição lexical. Pipoca é uma delícia, hmmmm uma mandioca frita... Torço muito pra não ir pra pindaíba....

Tenho quase absoluta certeza que é por causa desse meu jeitinho manhoso, cheio de gracinhas e acolhedor que tentam me fazer criar amizades com a tal da Inglesa, principalmente se for a Inglesa Americana, nariz empinado, ainda pior que sua irmã mais velha Inglesa Britânica. Eu não vou muito com a cara dela e é por isso que não quero me misturar. Esse “ajuntamento” todo parece ser tradição de toda minha família, faz um tempo que meu irmão mais velho - pouco mais velho que Portuguesa Portuga - Francês Franco, fez um contrato com Inglesa Canadense - essa é legal até - para que o Canadá falasse as duas línguas... Francês adora fazer essas coligações.

Tentei resistir, mas com a Internet Faladeira, uma enxerida serelepe que vive pulando por aí querendo que todo mundo seja unido, algumas palavras escapam e pulam direto para meu bloquinho de notas. É muito difícil de controlar as pessoinhas que andam por aí dizendo que vão “deletar o nome da agenda” ou “mandar um e-mail para um parente distante”. Está tudo bem agitado, mal consigo manter meu cabelo em ordem, tenho de estar sempre atenta às coisas que vêm aparecendo, se deixar, vira bagunça e ainda tenho de aguentar Portuguesa Portuga me enchendo as paciências porque eu deixo tudo aberto demais para entrada de palavras. No entanto, a verdade é... no final de tudo, sempre tem uma palavrinha ou outra que vem de fininho e entra por aí perambulando.
Mamãe também não gosta muito de se misturar, mas minhas irmãs e eu acabamos pegando uma coisinha ou outra durante as visitas que fazíamos a titio Grego. Um homem robusto, de barba e que, às vezes, fica por aí devaneando e pensando sobre a própria existência. “Os arquipélagos da Grécia são muito bonitos”, “Tive de fazer uma cirurgia para tirar as pedras do rim”.

Quando disse que minha família é grande, não era brincadeira. Além de todas minhas irmãs gêmeas e Francês – cujo já comentei por aqui -, tenho mais duas irmãs que também têm irmãs gêmeas. Espanhola Espanha e todas as suas outras mais de vinte irmãs (Espanhola Argentina, Espanhola Chilena, Espanhola Mexicana...). Algumas delas moram perto de mim, até tento conversar com elas, sabe, somos um pouco parecidas, mas sempre dá errado. Também tenho minha outra irmã, a Italiana, essa é um pouco briguenta e não tem muitas irmãs gêmeas. Assim como Francês, Itália prefere fazer coligações, existem até alguns lugares que fez contrato com o próprio Francês... A Suíça é um grande exemplo. 

Poderia ficar aqui falando e falando sobre toda minha família, irmãos, tios, tias, primos... até mesmo falar um pouco mais de minha mãe e toda sua trajetória. Latim tem ótimas histórias. Só não tenho tempo suficiente para isso e acredito que também seria muita informação para você... então fica para outro dia. Agora mesmo me chamam para resolver uma briguinha entre Bolacha e Biscoito, um pequeno erro que cometi há tempos atrás na hora de distribuir as palavras e até hoje tenho problemas.

- Giovana Piccirillo de Abreu.

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